10 canções contra a corrupção que mudaram (um pouco) o mundo

Marta Rodrigues

A luta contra a corrupção, desigualdade e violência nem sempre é travada com estratégias políticas ou manifestações de rua. Para estes dez artistas, bastou uma canção e uma mensagem de protesto para fazerem a diferença.


A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, Bob Dylan (1963)

O tema de Bob Dylan antecipa um apocalipse iminente, associado ao clima de incerteza vivido nos Estados Unidos da América durante a Guerra Fria. As letras anunciam um mundo repleto de tragédia: “I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken / I saw guns and sharp swords in the hands of young children.”


P’ra Não Dizer Que Não Falei das Flores“, Geraldo Vandré (1968)

Lançada em plena ditadura militar no Brasil (de 1964 a 1985), a canção de Geraldo Vandré viu a sua reprodução proibida devido às suas letras de resistência e oposição ao regime: “Há soldados armados / Amados ou não / Quase todos perdidos / De armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam / Uma antiga lição / De morrer pela pátria / E viver sem razão.”

Blackbird”, The Beatles (1968)

A voz de Paul McCartney e os acordes da sua guitarra contam-nos a história de um melro com asas partidas que, na verdade, funciona como metáfora para os conflitos raciais dos anos de 1960 no sul dos Estados Unidos da América. O melro representa a mulher negra e o seu desejo de liberdade: “All your life / You were only waiting for this moment to be free.”

Grândola Vila Morena”, José Afonso (1971)

Uma canção sobre uma pequena vila alentejana vê os seus valores de igualdade e democracia ampliados e tornados eternos na Revolução dos Cravos de 1974. O poder desta canção resiste até aos dias de hoje e faz-se ouvir em protestos, manifestações e celebrações de liberdade. “O povo é quem mais ordena.”

E Depois do Adeus”, Paulo de Carvalho (1974)

A canção que iniciou uma revolução. Às 22h55 do dia 25 de abril de 1974, os Emissores Associados de Lisboa transmitiam este tema como primeira senha da revolução e davam sinal às tropas para se prepararem. As letras sem quaisquer indicações políticas fizeram-na passar despercebida, tendo-se tornado um símbolo da revolução anos mais tarde. “Quis saber quem sou / O que faço aqui.”

Liberdade”, Sérgio Godinho (1974)

Sérgio Godinho expressa as preocupações de um país no período após a Revolução dos Cravos. A liberdade política e o fim da ditadura de pouco serviam se as desigualdades sociais e económicas continuassem vivas. “Só há liberdade a sério quando houver / A paz, o pão, habitação, saúde, educação / Só há liberdade a sério quando houver / Liberdade de mudar e decidir.”

Cálice”, Chico Buarque (1978)

Também conhecido por “cale-se”, foi outro dos temas censurados pela ditadura militar no Brasil, tendo sido disponibilizada cinco anos depois. As letras reenviam-nos para uma crítica do regime e fazem uma alusão à traição de Jesus Cristo na Última Ceia: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres” (Mateus 26:39).


Sunday Bloody Sunday”, U2 (1983)

Uma manifestação pacífica em defesa dos direitos humanos no dia 30 de janeiro de 1972 em Derry, na Irlanda do Norte, ficou conhecida como Domingo Sangrento. 14 ativistas católicos desarmados morreram quando soldados ingleses dispararam contra cerca de dez mil manifestantes. A banda irlandesa questiona-se acerca da tragédia: “How long must we sing this song?”


Zombie”, The Cranberries (1994)

As letras assombrosas e melodias pesadas lembram os bombardeamentos de Warrington, Inglaterra, em 1993, levados a cabo pela IRA (Irish Republican Army), grupo que tinha como objetivo separar a Irlanda do Norte do Reino Unido. Duas crianças morreram e 56 pessoas ficaram feridas. “With their tanks, and their bombs / And their bombs, and their guns / In your head, in your head, they are dying.


É Sexta-feira (Emprego Bom Já)”, Boss AC (2011)


Boss AC faz um retrato das condições de vida em Portugal em 2011, ano marcado pela crise económica e intervenção da Troika. A melodia fica no ouvido e as letras apresentam traços de humor, mas a mensagem de oposição ao Governo não fica escondida. O tema revelou-se um espelho da situação de milhões de portugueses neste período. “Eles enterram o País, o povo aguenta / Mas qualquer dia a bolha rebenta.”